Tudo começou com piadinhas na escola. Don, de 4 anos, quis cortar os longos cabelos por não aguentar mais ouvir os colegas o chamando de menina.

“Por muito tempo ele ouviu as piadas e nós conseguíamos conversar com ele e ele deixava pra lá, mas vira e mexe vinha triste, chorava, pedia pra cortar o cabelo. Um dia, o pai o levou pra cortar”, conta a mãe, a conselheira tutelar Iara Cordero, 32 anos.

Em um vídeo em que conversa com a mãe, Don conta que gostava do seu cabelo. Mas estava incomodado com as brincadeiras. O vídeo é uma grande lição contra o preconceito. Questionado pela mãe, Don conta que na escola existem brinquedos de menino e outros, para as meninas, assim como cores para cada um. “Seu pai tem uma camisa rosa, será que ele é uma menina?”, pergunta Iara. É um excelente convite à reflexão!

É emocionante o momento em que a mãe pergunta ao menino se em casa ele tem regras sobre com que brinquedos pode brincar e ele responde que, em casa, deve apenas ser “feliz”. Don brinca com um fogãozinho, inspirado no pai, Pedro Henrichs, que é proprietário de um food truck que leva o nome do filho.

Vale a pena conferir esse diálogo:

A história do vídeo

O vídeo foi gravado por Iara em maio, a pedido de um amigo, que é ativista dos direitos humanos. Há quatro anos ele já havia convidado a família para fazer uma foto para a campanha do orgulho gay no Facebook. Ela participou com o marido e Don ainda bebê.

donpequeno

Neste ano, o amigo convidou Iara para fazer um vídeo para a campanha “Homofobia. É melhor falar”. O vídeo foi gravado em maio, às vésperas do Dia Nacional contra a Homofobia (17 de maio). Foi a oportunidade para tocar no assunto com Don:

“A gente tava indo dormir quado decidi fazer o vídeo e tentei pegar um assunto que eu poderia tratar com o Don com leveza, que o afligia, que eu entendia como preconceito de gênero, que entendia que muitas crianças apanham dos pais porque não se enquadram num padrão e que achava que poderia entrar na campanha, que faria sentido as pessoas refletirem sobre como ensinamos isso desde cedo…”

Repercussão

A mãe de Dom conta que não esperava a repercussão do vídeo e que não tinha a pretensão de ensinar nada a ninguém. Iara relata que queria que mães e pais que passam por situações semelhantes soubessem que não estão sozinhos e que, os demais repensassem seu comportamento.

“Muita gente vem falar comigo. Muita mesmo. Muitas mães que dizem que foram abandonadas porque o pai não entendia. Muitas que vem compartilhar suas histórias ou histórias das suas famílias. Muitas crianças com 6 anos que não atendem os estereótipos, meninos que gostam de Frozen, de sereias, de Barbies… Muitas meninas que querem autorama, futebol…”

Convite à reflexão

Iara defende que precisamos refletir sobre o que estamos ensinando aos nossos filhos:

“Eu me aflijo como a gente cuida das meninas, ensinando elas a cuidarem de bebês (trocam fralda da boneca, dão banho, comida…), daí quando crescem, os caras jogam tudo nas costas delas porque acham que as mulheres têm o ‘dom’ de ser mães, quando, na verdade, foram treinadas a vida toda. Já os meninos a gente deixa ver TV, não divide as tarefas e eles crescem achando que as mulheres têm aquela obrigação com a casa, tanto que quando fazem algo, dizem que estão ‘ajudando’, mas só ajuda quem acha que não tem aquela obrigação, que está fazendo um puta favor… Homem que cuida sozinho do filho (pai solteiro) vira matéria, mulher abandonada não”.

Confira a entrevista completa no G1